O ramal de Serra Negra

Tomaremos nota hoje a respeito de outro curioso ramal ferroviário. Desta vez citaremos a Cia Mogiana e seu pitoresco ramal de Serra Negra.  Como é sabido, as novas fronteiras agrícolas e a marcha do café na região de Campinas despontaram em meados do século XIX e, neste cenário, tornava-se natural a eclosão de novas cidades fundadas pelos descendentes dos desbravadores brasileiros originais que, frustrados na procura do já escasso ouro, viam futuro adquirindo sesmarias em locais mais ao sul da região mineradora, e empreendiam nas novas terras, com benfeitorias e novas atividades agrícolas, fato que culminou no segundo ciclo do açúcar paulista, e posteriormente deixaria tudo preparado para a referida chegada do café.

Trem de passageiros chegando na estação de Serra Negra

Este é o caso de Serra Negra. Oficialmente a cidade é fundada em 23 de setembro de 1828, com a autorização para elevação de uma capela por Lourenço Franco de Oliveira, no entanto, Continue reading

A locomotiva a Álcool de João Bottene

Desde áureos tempos é preocupante a utilização de combustíveis fósseis, fontes não renováveis e muito poluentes, mas que são de vital importância para que o mundo funcione, seja queimando nos motores de carros, caminhões ou trens, ou mesmo em uso industrial, das mais diversas formas. Neste País, passamos por vários ciclos em que tentou-se implementar um novo combustível, como por exemplo o famoso “pró-álcool” nos anos 70, após a crise do petróleo de 1973. Hoje em dia, por questões, ao meu ver, de puro marketing, alterou-se o nome do combustível para “etanol”, mas que é basicamente a mesma coisa.

"Maria Helena", a locomotiva movida a álcool construída por Bottene na Usina Monte Alegre, em Piracicaba
“Maria Helena”, a locomotiva movida a álcool construída por Bottene na Usina Monte Alegre, em Piracicaba. Acervo Paulo Moretti

Especialmente no Estado de São Paulo, o álcool é um produto amplamente fabricado, tendo em vista sermos um estado agrícola, que vive seu terceiro ciclo da cana. Basta irmos dar um passeio no interior para observarmos o “mar de cana”, em substituição a um passado no “mar de café”. O que infelizmente muitos de nos não sabemos, por uma triste ignorância que se faz a nossa história, é que esta abundante disponibilidade deste combustível não passou desapercebida no passado e, mais uma vez, a história se cruza com aquele que merece a alcunha de “gênio da mecânica”, João Bottene.

Bottene nesta época trabalhava para os Morganti nas oficinas da Usina Monte Alegre (UMA), em Piracicaba, e a muito já havia convertido alguns motores a combustão interna para a queima do álcool como combustível, em tratores e caminhões, na esperança de utilizar parte da produção da usina, diminuindo o custo com combustíveis comprados fora, como o diesel e a gasolina.

Porque não, então, aproveitar esta feliz experiência para a construção de locomotivas? Muito haveria de ganhar a usina. O custo de manutenção seria menor, não haveriam as famigeradas fagulhas saindo das chaminés das locomotivas em meio ao canavial, o calor na operação seria drasticamente diminuido melhorando a condição para os maquinistas, e o tempo de preparo para as maquinas funcionarem diminuiria muito, ja que era apenas questão de ligar os motores, e sair andando, dispensando as horas de acendimento das caldeiras.

João Bottene, o "gênio da mecânica
João Bottene, o “gênio da mecânica

Nos anos 40, então, após a entrada em tráfego da locomotiva “Fulvio Morganti”, a vapor e também construída na UMA, começa a construção desta outra joia mecânica desenvolvida por Bottene. A locomotiva em questão foi fabricada inteiramente na UMA em bitola de 60 cm, possuía 3 eixos ligados entre si por bielas, e movida com dois motores de caminhão adaptados para a queima do álcool. A cabine ficava centralizada no corpo da maquina, que tinha capacidade de tracionar até 15 vagões carregados de cana. Recebeu o nome da esposa do dono, “Maria Helena”, e teve o número 9 na UMA. Infelizmente, não se sabe o destino que esta verdadeira joia teve, ou mesmo quando paro de funcionar.

Rara fotografia da locomotiva em serviço. Bottene aparece de pé em cima dela. Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Rara fotografia da locomotiva em serviço. Bottene aparece de pé em cima dela. Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Particularmente, eu o coloco como o inventor do ciclo a álcool nos motores a combustão interna, e mais uma vez nossa ignorância com a história retiram da mão da população esta informação preciosíssima. Infelizmente, seus dados são poucos, e não sabemos o paradeiro desta outra maravilha construída por Bottene, uma das tantas jóias que este ilustre paulista nos presenteou em sua brilhante trajetória! (Leandro Guidini escreveu em 11/2016)

O Ramal de Santa Rita do Passa Quatro

Trataremos de contar a história de um outro importante ramal agrícola, o famoso “Ramal de Santa Rita do Passa Quatro”, que, nos mesmos moldes da Cia Descalvadense, e até mesmo da navegação fluvial, vinha para ajudar a Cia Paulista na sua difícil situação econômica em fins do século XIX. Utilizou-se, mais uma vez, da astúcia e da influência de seus poderosos acionistas para a criação de empresas e ramais que a ela convergissem, drenando cargas de suas concorrentes diretas (neste contexto a Cia Mogiana, e também a Rio Clarense).

o mítico trenzinho da bitolinha da Cia Paulista, em Santa Rita do Passa Quatro
o mítico trenzinho da bitolinha da Cia Paulista, em Santa Rita do Passa Quatro

Já havia conseguido a Paulista afrontar a Rio Clarense pela linha do ramal descalvadense, e começava as vias da mesma situação com a Mogiana pelo leito do rio Mogy-Guassú. No entanto, isso ainda era pouco para a jovem Paulista. Queria ela estar na outra margem do rio e, após assembleia geral de acionistas Continue reading

Estrada de Ferro São Paulo e Minas

Para conhecermos a história da Estrada de Ferro São Paulo – Minas (SPM) temos que voltar um pouco no passado e comentar sobre a primeira iniciativa ferroviária própria do município de São Simão, que somente então daria origem a esta interessante ferrovia, depois de longos períodos de uma história cheia de fases e curiosos desfechos.

Locomotiva número 1 da SPM, original da Cia Melhoramentos nomeada "São Simão", renomeada como "Rio Pardo". Baldwin de 1891, número de série 12227
Locomotiva número 1 da SPM, original da Cia Melhoramentos nomeada “São Simão”, renomeada como “Rio Pardo”. Baldwin de 1891, número de série 12227

Faz-se importante ressaltar neste ponto as constantes brigas judiciais entre as grandes ferrovias paulistas, elencadas aqui através da Cia Paulista (CP) e a Cia Mogiana (CM). Desde a perda de concessão para chegar até a região de Ribeirão Preto, colocava-se a CP (por intermédio de seus acionistas) em todas as iniciativas de construções de ramais Continue reading

O Ramal Descalvadense

A expansão da ferrovia além da cidade de Jundiaí, após a desistência da São Paulo Railway (SPR), pela então formada Cia Paulista de Estradas de Ferro (CP) criou diversas situações que marcaram para sempre a história deste Estado. Conheceremos, então, um resumo sobre a primeira ferrovia agrícola do Estado de São Paulo, que foi fruto de todas estas articulações.

Trem parado na estação de Aurora aguardando retornar para Descalvado
Trem parado na estação de Aurora aguardando retornar para Descalvado

Os trilhos chegam às barrancas do rio Mogi-Guassú através do prolongamento da CP entre a estação de Continue reading