A bendita chaminé!

Neste fragmento de fotografia acima podemos ver a locomotiva número 910 parada em Santa Rita do Passa Quatro em 1956. O detalhe bacana é ver é a chaminé que fica acima da cabine em funcionamento. Vemos um jato de vapor saindo dela. Eu me perguntei por anos o que era isso, e ouvi a resposta “é a chaminé do freio”… Tempos depois veio algo um pouco mais preciso, pois descobri que era a chaminé do freio a vácuo.
Mas, de verdade, para que serviria tão peculiar peça, que vemos em muitas locomotivas? Seu nome técnico em inglês é “Noise Muffler”, ou porcamente traduzido como “silenciador” (abafador de ruídos talvez seja mais próprio). Este é um aparato utilizado em freios a vácuo. Para gerar o vácuo, existe um aparelho denominado EJETOR, onde o vapor é “assoprado” em uma sequência de cones, criando um efeito “venture” dentro de uma câmara, que por diferênça de pressão cria o vácuo. Não vou me estender em falar disso, é assunto para outro post. Este vapor tem que sair para algum lugar. Algumas ferrovias o devolviam para a caixa-de-fumaça, fazendo as vezes de um ventilador auxiliar, mas a grande maioria das ferrovias tinha a bendita chaminé. Este vapor faz barulho pra sair, barulho de sopro bem forte, e isso incomoda, e incomodava os passageiros das estações, já que com o trem parado, o ejetor tem que ficar funcionando (como esta na foto acima!) para manter o trem freado. Os inventores de um dos mais práticos e funcionais sistemas de freio a vácuo também, notando isso, inventou o abafador. Chamavam-se Frederick e Elisha Eames, e esse sistema de freio leva o nome EAMES.
  
O dispositivo é um tubo de ferro, com fundo roscado para receber o encanamento de descarga do ejetor, e tampa furada para permitir a saída do vapor. Dentro deste grande cilindro são colocados pedaços de madeira cortados em cubos, ou qualquer outro material parecido. Este é o grande segredo do abafador. Quando o vapor passa pelos pedaços de madeira, esta abafa seu som. Grande sacada, pois madeira é isolante acústica. Outro detalhe, os tocos de madeira, desiguais e desordenados dentro do cilindro diminuem a velocidade do vapor, o que ajuda também na diminuição do ruído.
A primeira vez (e única) que, de fato, vi pessoalmente uma desta chaminés foi na locomotiva “jibóia” que encontra-se no museu catavento em São Paulo. Estas fotos acima fiz dela. Pouco tempo depois, recebi de um amigo da Alemanha uma cópia de um livro da EAMES, com tudo que é possível saber deste sistema de freio. Fantástico. Minha procura agora é por, no mínimo, uma foto do ejetor eames que é bem diferente dos ejetores que tem nas locomotivas ainda funcionais aqui do Brasil.  Vejamos na imagem abaixo, extraída deste documento, como é o Noise Muffler.
Sempre tive interesse nos freios a vácuo, e principalmente no sistema Eames. Tenho a ideia de construir novamente um aparelho similar para adaptar nas pequenas locomotivas que ainda não tem freio. Vamos ver no que dá, acho que é possível, e, quando fizer, todos saberão aqui no vapor mínimo.

Leandro Guidini é um jovem apaixonado pelas ferrovias do Estado de São Paulo. Desenhista industrial por formação, atua na área da Arqueologia Industrial, pesquisando temas vinculados à ferrovia e fazendas de café, importante binômio do desenvolvimento paulista, sendo autor de livros e artigos. Em suas horas vagas, conduz algumas das velhas Maria-fumaças preservadas na cidade de São Paulo e pratica ferreomodelismo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *