A ferrovia da Fazenda Chimborazo

Para começarmos a falar da Estrada de Ferro Chimborazo (EFC), como a chamaremos, temos que abordar uma outra história, de uma grande organização rural existente em fins do século XIX e meados do XX, a famosa CARP – Companhia Agrícola do Ribeirão Preto.

Trem da CB descarregando sal em um dos terreiros da fazenda Chimborazo.
Trem da CB descarregando sal em um dos terreiros da fazenda Chimborazo.

Não irei me aprofundar nas questões pertinentes à cia, mas é de extrema importância que seja levado em consideração um resumo do que ela foi. As histórias envolvendo a CARP e sua ferrovia infelizmente são cheias de lacunas por ser esta uma empresa privada, não exigindo concessões estaduais ou federais, dificultando a pesquisa.

 

Breve histórico da CARP.

A CARP foi uma empresa criada em 1888 por um grupo de investidores financeiros do Rio de Janeiro, com chamada de capital de aproximadamente 4000 debêntures no valor médio de 150 réis, sendo autorizado o pagamento de resgate pelo Banco da Republica do Brasil em 28 de fevereiro de 1894. Em primeiro de abril de 1892, toma posse o novo dono da cia, o sr Conde do Pinhal, que compra a cia dos investidores fluminenses. Seus herdeiros a administram mesmo após sua morte em 1901.

Vista geral da sede da CARP, Fazenda Chimborazo, em 1911.
Vista geral da sede da CARP, Fazenda Chimborazo, em 1911.

Possuía uma área de aproximadamente 5 mil alqueires na região compreendida entre os municípios de São Simão e Cravinhos, com 9 fazendas espalhadas por toda a propriedade, sendo elas: Toca; Lagoa; Matão; Santa Fé; Engenho; Monte Belo; Monte Parnazo; Tibiriçá e Chimborazo – esta ultima era a maior de todas e sede administrativa do complexo e contava com os serviços principais de subsistência, escritórios e escola. Havia 2.037.000 de pés de café plantados, fora outras culturas para subsistência e pastagens para animais. Aproximadamente 400 famílias viviam pelas terras da CARP, espalhadas em inúmeras colônias por todas as fazendas, totalizando aproximadamente 3000 colonos.

Vista de uma das colônias da fazenda Chimborazo - colônia branca - batida a partir do terreiro. Congresso agrícola de Ribeirão Preto em 1914.
Vista de uma das colônias da fazenda Chimborazo – colônia branca – batida a partir do terreiro. Congresso agrícola de Ribeirão Preto em 1914.

Em 1923, por força de herança, Pedro Egydio de Queiroz Aranha torna-se dono das ações da CARP e junta-se a seu cunhado, Waldomiro de Almeida Vergueiro. Na data de 05/04/1924, Pedro Egydio, Waldomiro Vergueiro e a empresa “Marques Valle & Cia” firmam contrato de sociedade particular para dispor de todas as ações da CARP, cabendo a Pedro Egydio a nova divisão dos títulos. Porém, de maneira criminosa, protestada por Pedro Egydio, a empresa Marques Valle & Cia vende todas as ações à investidora londrina “The Parents Trust Limited Co”, que repassa os direitos a uma nova empresa, com sede em Londres denominada “Companhia Cafeeira Britânica Brasileira” (CB). Esta empresa administrou a extinta CARP, em meio a diversos processos movidos pelas partes, até o ano de 1938, quando o sr. Paulo Matarazzo adquire todo o complexo.

Neste período, a extinta CARP, extinta CB passa a ser denominada Fazenda Santo André, dividida em quatro seções, a sede, a antiga Fazenda Chimborazo, com o novo nome “Santo André”, e as seções Tibiriçá, Matão e Santo Antônio.  Nos dias de hoje as fazendas ainda pertencem a herdeiros do sr Matarazzo, que já não plantam mais o café, e sim cana de açúcar, com um novos nomes, Fazenda Santa Virgínia e Fazenda Santa Francesca.

A Estrada de Ferro Chimborazo.

Não é totalmente correto chamarmos esta ferrovia como “Estrada de Ferro Chimborazo”, pois Chimborazo era, como citado anteriormente, uma das fazendas do complexo. Porém, sua importância para a CARP (e todas as suas sucessoras) permite que assim a chamemos. A ferrovia foi criada para uma melhor viabilidade no fluxo de todas as atividades que envolviam a produção do café, que até entrar em funcionamento, era todo feito por meio de tropas de bestas e carroças. A amplitude do local e o grande número de localidades a serem atendidas dentro de todo o complexo da CARP eram um fator determinante para a instalação dos trilhos interligando as propriedades a dois pontos específicos. O ponto de “produção” e o ponto de “escoamento”.

Estação Tibiriçá, construída pela CARP na linda da Mogiana
Estação Tibiriçá, construída pela CARP na linda da Mogiana

A Cia Mogiana de Estradas de Ferro (CM) cortava a CARP em uma de suas fazendas, vindo de São Simão com direção à Cravinhos. Por pedido da CARP à CM, através de recursos próprios, ela constrói uma estação no quilometro 285,2 de sua linha tronco, com feições totalmente diferentes de qualquer prédio da CM, inaugurada em 15 de julho de 1892, foi denominada Tibiriçá por estar nas terras desta fazenda. Foi, desta maneira, aberto o ponto de escoamento próprio da CARP. Desta estação partiria seu ramal ferroviário, que se desenvolvia por 17 km de extensão em bitola de 60 cm, em uma via única contínua, dividida em três seções, sendo de Tibiriçá à Chimborazo, com 3 kms de extensão, de Chimborazo à Monte Parnazo, com 2,5 kms de extensão, e de Monte Parnazo à Monte Belo, com 11,5 kms de extensão.

Trecho da ferrovia no meio dos cafezais.
Trecho da ferrovia no meio dos cafezais.

Sugere-se que a construção da ferrovia deu-se entre 1895 e 1897, pois nesses anos, de acordo com os relatórios da CM, o volume de cargas foi muito superior aos tabelados anteriormente e posteriormente, batendo tais volumes com o volume de material necessário à construção da ferrovia e todos os seus suprimentos. Além dos 17 kms de vias, possuiu 4 locomotivas, 30 vagões e 2 carros de passageiros.

Não haviam casas sede (ou “casas grande”) nas demais fazendas do complexo, apenas casas de colonos, tulhas e terreiros. Toda a produção da CARP era processada na fazenda Chimborazo. Por meio da ferrovia, o café colhido e seco em outras localidades era trazido para a casa de maquinas da Chimborazo, onde era beneficiado, e tinha a capacidade de produção de até 1800 arrobas de café por dia, sendo lá estocado.

chimborazzo
Ferrovia ao lado da tulha na Fazenda Chimborazzo

Este café beneficiado, pronto para exportação, era mais uma vez transportado por ferrovia até a estação Tibiriçá, onde era baldeada para os trens da CM, seguindo para Santos. O ramal também servia de transporte aos colonos que moravam em localidades mais distantes dentro do complexo ou para imigrantes que ali desembarcavam, também para o escoamento de itens vindos pela CM para uso das fazendas, com destaque para uma alta circulação de sal, ou mesmo para movimentações de cargas internas, como lenha.

Trem carregado de lenha passando pelo prédio da administração da fazenda.
Trem carregado de lenha passando pelo prédio da administração da fazenda.

Vagarosamente a cultura do café foi sendo substituída por outras culturas, em menores escalas, que eram facilmente escoadas por meio de caminhões e tratores, que começaram a ser comprados e utilizados nas fazendas do complexo. A ferrovia começa a perder a sua importância, mas ainda estava ativa em 1954.

A CM abre sua retificação ferroviária em 1964, o que fecha a estação de Tibiriçá. Não é possível afirmar que nesta mesma época a ferrovia tenha sido fechada também, mas não haveria sentido sua existência além desta data, levando em consideração a abertura da via anhanguera em 1958 (que passa a menos de 100 metros da estação de Tibiriçá) e a já citada introdução dos equipamentos rodoviários no dia-a-dia da fazenda.

Não se sabe, ao certo, quando a EFC parou de funcionar, mas é aceitável dizer que entre 1954 (ultima data conhecida citada) e 1964 (fechamento da estação de Tibiriçá) a ferrovia sucumbiu. Nada foi encontrado a respeito da destinação do material rodante, nem mesmo dos trilhos, sendo, provavelmente, tudo vendido como sucata. Para o autor, a data mais provável de fechamento da ferrovia é a inauguração da rodovia, em 1958. (Leandro Guidini escreveu em 05/2014).

Um trem carregado de café em um dos terreiros da CARP.
Um trem carregado de café em um dos terreiros da CARP.
Colonos carregam sacas de café no trem.
Colonos carregam sacas de café no trem.
Trem carregado de café parte da fazenda Monte Parnazo.
Trem carregado de café parte da fazenda Monte Parnazo.

(Nota do autor: Nas fotografias da ferrovia, vemos claramente um dístico tipado nos vagões “CB”. Trata-se da sigla utilizada pela Cia Cafeeira Britânica Brasileira. Logo, acreditamos que todas as fotografias obtidas no Arquivo Publico e Histórico de Ribeirão Preto tenham sido batidas entre 1923 e 1938).

Referências bibliográficas:

Botelho, Martinho – Revista Brazil Magazine, ano 5, nº 57.

Capez, Amim e Daia, João Antonio – Revista Cravinhense, edição especial, 1954.

Gomes, Francisco – Cravinhos: Histórico Geographico Commercial Agrícola – Typographia Selles, 1922.

CMEF, Relatório para assembleia dos acionistas da – (1891 a 1900; 1961 a 1964).

Relatório de RESGATE DO PATRIMONIO ARQUEOLÓGICO CULTURAL MATERIAL: Programa de Gestão do Patrimônio Histórico Arqueológico, Sistema Logístico de Etanol, Trecho I – vol. II; cap. 6 – O Patrimônio Ferroviário, ítem 6.4.3, elaborado por Rafael Prudente Corrêa em coautoria com Leandro Guidini. Junho de 2013 para a Arqueologika.

– DOSP, ano 46, número 45 de 24/02/1935, página 23

Leandro Guidini é um jovem apaixonado pelas ferrovias do Estado de São Paulo. Desenhista industrial por formação, atua na área da Arqueologia Industrial, pesquisando temas vinculados à ferrovia e fazendas de café, importante binômio do desenvolvimento paulista, sendo autor de livros e artigos. Em suas horas vagas, conduz algumas das velhas Maria-fumaças preservadas na cidade de São Paulo e pratica ferreomodelismo.

3 comments
  1. Parabéns, Guidini, suas postagens são sempre com um excelente conteúdo.

    1. Muito obrigado Dário. Procuro sempre melhorar e trazer boas e novas informações!

  2. […] história começa em outra ferrovia particular, a Cia Agrícola do Ribeirão Preto (CARP). Em fins do século XIX, era seu presidente o engenheiro civil Rufino Augusto de Almeida que, em […]

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