Ferrovias Agrícolas

A matéria a seguir é introdutória a um longo estudo sobre as ferrovias agrícolas existentes no Estado de São Paulo. Abordarei neste blog, com ênfase nas ferrovias cafeeiras, suas histórias de forma resumida, objetivando trazer ao leitor um panorama pouco abordado do assunto.

Linha decauville na fazenda Guatapará.
Linha decauville na fazenda Guatapará.

Sempre que citamos o binômio café-ferrovias no estado de São Paulo, é impossível não se remeter as grandes ferrovias, como a Cia Mogiana, Sorocabana e Paulista, deixando de lado estas pequenas ferrovias que ajudavam em seu “abastecimento”. O conceito de ferrovia agrícola surge para facilitar certas operações “logísticas” dentro de propriedades rurais, em uma época onde a “logística” não era conhecida. O manejo da produção dentro de uma fazenda podia tornar-se mais custoso e lento devido o tamanho do complexo quando da utilização de carroças ou carriolas para tal, com capacidade inferior e maior esforço, quer humano ou animal. A utilização de trilhos e vagonetas aumentava exponencialmente a capacidade de carga e rapidez das operações, diminuindo o esforço. Dependendo do local a ser instalado, da distância a ser percorrida ou mesmo da rapidez exigida, estes caminhos de ferro poderiam ser tracionados por locomotivas, por “bestas” (este era o nome dado às mulas, animais extremamente úteis na lavoura por sua força), ou mesmo empurrados pelos empregados.

catalogo_orestain_koppel

Detalhe de parto do catalogo da Orestain & Koppel.
Detalhe de parto do catalogo da Orestain & Koppel.

Diferente das ferrovias comerciais, estas pequenas ferrovias visavam a total facilidade de operação instalação e manutenção. Algumas empresas em fins do século XIX, começo do XX especializaram-se em produzir todo o tipo de equipamento e suprimento para este seguimento. Podemos destacar a mais importante delas, a francesa Decauville, que mais tarde fora comprada pela alemã Orestein & Koppel. De tanta importância, tornou-se uma “metonímia” para o setor, sendo até os dias de hoje as pequenas ferrovias conhecidas por “ferrovias decauville”.  Porém, muitos foram os fabricantes de materiais e suprimentos, como por exemplo, as empresas: Hunslet; Simplex; Kerr Stuart; Jung; Henschel; Baldwin; ALCo; HK Porter, etc.

vagoneta_decauville

tipos de locomotivas e vagões utilizados em ferrovias agrícolas.
tipos de locomotivas e vagões utilizados em ferrovias agrícolas.

Aqui no Brasil, era possível a compra e encomenda de matérias nos representantes das marcas, onde era possível encomendar seu “kit” a partir de um anuncio em jornal. Haviam também empresas que trabalhavam com compra e venda de materiais industriais usados, incluindo ferrovias agrícolas inteiras.

As ferrovias poderiam ser fixas ou móveis, dependendo de sua utilização. Em ferrovias com trechos mais longos era mais comum a via era assentada de forma definitiva, com trilhos de perfil baixo e dormentes de madeira, igual a uma ferrovia comercial. Havia a possibilidade de comprar os trilhos móveis, montados em perfis de ferro com aproximadamente 5 metros de comprimento em cada secção, onde uma ou duas pessoas facilmente pudessem carrega-las e monta-las, em qualquer local que fosse desejado, por exemplo, no terreiro de café na época da safra, ou mesmo entre as ruas do cafezal para a colheita. As bitolas mais comuns eram de 50 e 60 centímetros.

Anuncio do jornal Estado de SP em 1919
Anuncio do jornal Estado de SP em 1919

Mapear as ferrovias agrícolas não é tarefa fácil. Algumas destas ferrovias tinham uma longa extensão, pertenciam a empresas agrícolas e interligavam várias fazendas a um ponto de entroncamento com uma ferrovia comercial. Isso facilita muito as pesquisas, pois há como procurar informações de suas fundações, diretorias, trechos percorridos, período em que atuaram, etc. No entanto, a grande maioria destas ferrovias estava localizada em fazendas sem ligação externa, sendo utilizadas como parte de seu maquinário e, tão logo o café perde importância e estes equipamentos ficam obsoletos, são sucateados e desaparecem, sendo substituídos por tratores a gasolina/diesel e seus implementos.

A primeira ferrovia agrícola a ser fundada no Estado de São Paulo foi a “Cia Descalvadense de Ferrovia Agrícola”, formada em março de 1888 por cafeicultores do município de Descalvado, com 13 quilômetros de extensão, ligando os trilhos da Cia Paulista a varias fazendas de café ao longo de sua linha. Esta pequena ferrovia foi comprada pela Cia Paulista três anos mais tarde, que se tornou um de seus dois ramais em bitola de 60 cm, juntamente com o Ramal de Santa Rita do Passa Quatro.

Citarei algumas destas ferrovias ao longo do ano, como a CARP (Companhia Agrícola do Ribeirão Preto) e sua ferrovia; São Paulo Coffee Estates; Ramal de Santa Thereza, Tramway Vicinal de Ribeirão Preto, etc. Conforme as pesquisas forem avançando e novos dados ou novas empresas forem sendo descobertas, as novidades serão postadas aqui.  (Leandro Guidini – fevereiro de 2014).

Ferrovia interna da Fazenda Montevidéo - Araras.
Ferrovia interna da Fazenda Montevidéo – Araras.
Ferrovia interna da fazenda Lageadinho - Chavantes.
Ferrovia interna da fazenda Lageadinho – Chavantes.

Leandro Guidini é um jovem apaixonado pelas ferrovias do Estado de São Paulo. Desenhista industrial por formação, atua na área da Arqueologia Industrial, pesquisando temas vinculados à ferrovia e fazendas de café, importante binômio do desenvolvimento paulista, sendo autor de livros e artigos. Em suas horas vagas, conduz algumas das velhas Maria-fumaças preservadas na cidade de São Paulo e pratica ferreomodelismo.

1 comment
  1. […] o simples nome de “Cia Cal”. Não é oficial, mas a chamo assim. Esta pequena ferrovia “decaulville”, que imagino existir desde 1903, data das primeiras locomotivas Krauss da ferrovia, transportava o […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *