Live Steam

Você conhece o Live Steam? acredito que não! O Vapor Mínimo introduz você, caro leitor, a esse fantástico mundo. Como você ja sabe, nossa proposta aqui é mostrar o universo das pequenas locomotivas e ferrovias, mas ha um ramo do ferromodelismo (área do modelismo dedicada a reprodução de ferrovias, normalmente com trens elétricos em miniatura) chamado “Live Steam”, que em tradução livre significa “Vapor Vivo”. Consiste na reprodução de locomotivas a vapor, em escala reduzida, mas que realmente funcionem a vapor, com míni caldeiras tocadas a lenha ou carvão, e com capacidade de tracionar pessoas, e o próprio maquinista, embarcados sentados em cima de pequenos vagões. Este é um hobby muito difundido e praticado em Países de língua inglesa, ou de origem anglo-saxã, esta no DNA deles, europeus, norte-americanos, germânicos, etc, afinal, foi com esses povos que se iniciou a revolução industrial. A reprodução de miniaturas é tão antiga quanto a própria civilização moderna, e a miniaturização das mais diversas maquinas a vapor é tão antiga quanto as próprias.

Em agosto de 1988, Arnaldo Bottan traciona alguns amigos com sua locomotiva “Columbia” 4-8-4, em São Caetano do Sul

Mas afinal, o que é o Live Steam? Este texto escrito por Arnaldo Bottan, nosso grande Mestre, conta sucintamente a respeito:

“O Vapor Vivo, tradução livre para o termo em inglês Live-Steam, não se ocupa somente das locomotivas a vapor. Esse hobby engloba a construção e operação de modelos de toda e qualquer maquinária daquele período da evolução tecnológica que vai desde de meados do século XVIII até mais ou menos a Segunda Guerra Mundial. São locomotivas propriamente ditas, tratores, locomóveis, rolos compressores, automóveis, caminhões, máquinas navais, motores estacionários, bombas (burrinhos), etc. uma infinidade de tipos.

Os modelos podem ser réplicas de protótipos (as “de verdade”) de locomotivas que realmente existiram ou ainda existem, pois há muitas preservadas, ou podem ser construídos sem seguir rigorosamente nenhum protótipo pré-existente. São digamos… free lance. Isso se aplica a qualquer classe de modelismo.

A literatura é praticamente toda em inglês, (boa oportunidade para aprender a língua) e hoje em dia facilmente trazida do exterior. A internet também fornece boas informações. Em  nosso país, o Live Steam não conta com a infra-estrutura industrial e de lojas especializadas como já temos em outras classes de Modelismo. “

Arnaldo mantém um excelente site a respeito de seu hobby, com bons textos e fotos de seus modelos, vale muito a pena conhecer! clique aqui e conheça o site

Os grandes Mestres do assunto, Arnaldo Bottan (à esquerda) e Edmar Mammini (à direita)

A prática do Live Steam exige que o modelista tenha conhecimento em algumas áreas da mecânica industrial, e o domínio sobre o torno mecânico e a fresadora. Também é necessário que haja uma pequena oficina a disposição do modelista, com essas maquinas cidatas acima, um bom compressor, uma boa bancada, algumas ferramentas. Não precisa de nada padrão NASA, mas um pouco de carinho e capricho resolvem bastante dos problemas enfrentados, uma vez que não ha peças em série, 90% da locomotiva é feita de forma artesanal. O autor mantém um canal no Youtube (conheça o canal) onde se encontram diversos vídeos sobre o tema e, em especial, podemos ver este vídeo sobre uma oficina de Live Steam.

Diferente do trem elétrico, os modelos a vapor exigem que as locomotivas sejam maiores, por razões obvias. Por aqui, adotamos a bitola de 3 1/2″ (três e meia polegadas), algo em torno de 89 milímetros. Ha uma padronização mundial, e esta bitola é uma delas, portanto, se um dia levarmos nossas locomotivas a um clube na Inglaterra que tenha linha desta bitola, poderemos rodar com tranquilidade. Existem outras bitolas, como por exemplo a de 5″ ou a de 7 1/4″. Estas duas ultimas são as mais utilizadas la fora, mas trazem um problema, que é o peso e o tamanho da locomotiva. Como não possuímos clubes com as linhas fixas, e uma infraestrutura para guardar as locomotivas, carrega-las e descarrega-las de maneira simples, temos que enfrentar o problema diminuindo o tamanho. As locomotivas em bitola de 3 1/2″ são menores, e estão no limite do aceitável para que duas pessoas consigam carrega-las e construí-las sem dificuldade. Lembre-se que a construção é praticamente toda sozinho, como seria ter que usinar peças enormes dentro de uma “oficina de fundo de quintal”, sem a ajuda de possantes talhas ou pontes-rolantes? Uma locomotiva pronta pode chegar a pesar 120 quilos nesta bitola, ao passo que em bitolas maiores o peso aumenta em uma potenciação cúbica, e não é difícil ver locomotivas com 400, 500 quilos!! A diversão fica por conta da construção das peças, e de ver a locomotiva saindo, parafuso-a-parafuso. As vezes, acontece de se ter exposições, dai pode ser montada a linha, seja numa grande reta, ou em forma de “zero” ou “oito”, dependendo do espaço. Neste vídeo ha um exemplo de como acontece uma exposição, que aconteceu na cidade de Chavantes.

Os praticantes

São poucos os praticantes (conhecidos) deste hobby no Brasil. A maioria deles esta no Estado de São Paulo, mas nem todos praticam de forma universal e padronizada, o que dificulta a formação de um clube. Hoje em dia, além de criarmos e construirmos nossas próprias locomotivas, muito fazemos pela memória do vapor, como por exemplo a recuperação de medidas dos antigos apitos para construção de suas réplicas. Existem diversos vídeos de diversos apitos restaurados e reconstruídos, como por exemplo este aqui, e muitos outros que podem ser encontrados no canal do youtube.

Arnaldo Bottan  – Mora na zona sul de São Paulo e pratica o Hobby desde os anos 70. Começou a se interessar desde criança, quando via as belas locomotivas a vapor da Estrada de Ferro Sorocabana passarem por sua cidade natal, Lençóis Paulista, e também por acompanhar seu avô pelos diversos engenhos de açúcar e aguardente, arrumando todo o tipo de maquinaria a vapor. Quando jovem, viu em uma publicação de uma revista a foto de uma pessoa sentada em uma pequena locomotiva a vapor, e se interessou profundamente com enorme paixão por aquilo. Tempos depois, adquire seu primeiro torno e fresadora, e começa na casa de seus pais, em São Caetano do Sul a construção de sua primeira locomotiva, uma mikado, totalmente fora de qualquer padrão, que fora feita nas horas vagas e folgas do trabalho. Esta pequena locomotiva foi vendida, e anos depois voltou para sua mão, para ser reformada pelo novo dono. De la pra cá, a dedicação e o conhecimento no hobby lhe renderam muitos modelos fantásticos fabricados por ele e, no momento, dedica-se ao termino da construção de uma réplica fiel das possantes locomotivas de três cilindros série 800 da EFS (Veja o vídeo aqui).

Edmar Mammini – Desde criança Mammini demonstrou talento para a mecânica. Ainda muito jovem construiu um motor a vapor apenas com lima e uma furadeira. Mammini é um Expert em modelos navais, construiu inúmeros barcos, a vapor e elétricos, modelos de maquinas agrícolas, locomotivas e tratores a vapor. É o único steamer conhecido no País a possuir uma ferrovia elevada de jardim, em sua casa na zona oeste de São Paulo. Mammini é versátil e muito hábil, mantem este site.

Edmar Mammini ao lado de sua pacific da EFS

Leandro Guidini – É o autor deste site, e logo abaixo estará uma pequena descrição  da origem da paixão pelo hobby. Leandro esta fabricando uma pequena locomotiva inglesa, de bitola 60 cm, semelhante a locomotiva “são josé”, que pertenceu a fazenda Chimborazo (saiba mais aqui), em Cravinhos. A base da locomotiva é um projeto de Martin Evans, um dos grandes mestres ingleses do live steam. Trata-se da locomotiva “conway”, uma 0-4-0 hunslet. Um projeto muito bacana, amplamente fabricado la fora por diversos steamers. Ainda ha muito trabalho pela frente!

Ao lado de seu grande Mestre e amigo, Leandro Guidini posa em foto junto da locomotiva de três cilindros

Fellipe Bragion – Este é um garoto, com pouco mais de 20 anos, uma promessa no hobby. Fellipe é técnico em química, mora em Santo André, e também esta fabricando uma Conway. Seu projeto esta super adiantado, e a locomotiva esta em vias de ser terminada. Muito caprichoso e detalhista, se dedica por longas horas em sua oficina para que suas técnicas sejam cada dia mais bem aprimoradas e que a qualidade das peças seja sempre crescente. No canal do youtube do autor, ha uma série “Os Aprendizes“, onde vão sendo disponibilizados videos da evolução desta locomotiva, vale a pena seguir.

Fellipe no primeiro teste de sua locomotiva, nas oficinas de Arnaldo Bottan

Matheus Consorte – É o mais novo iniciado no hobby. Após as divulgações principalmente dos vídeos, Matheus entrou em contato e já esta iniciando a construção de uma Mikado, seguindo os projetos do Mestre Bottan. Matheus mora em São José dos Campos, e esta investindo na montagem de sua oficina para o hobby. Mais uma boa promessa.

Nilton Polydoro – Mora em São Paulo, e tem um capricho imenso em suas peças. Esta fabricando uma bela pacific em bitola de 2 1/2″. Vale a pena conferir seu trabalho (acesse aqui).

Deo – Um simpático senhor do Espirito Santo, Deo, com mais de 80 anos, desde a adolescência fabrica suas miniaturas de locomotivas. Em uma escala e bitola um pouco menores que as praticadas normalmente, suas locomotivas não foram feitas para carregar pessoas (embora, com certeza tenham força), mas são um belo trabalho deste artesão capixaba. (conheça mais aqui)

Leonel – Leonel é de Ribeirão Preto, metalúrgico, ha muitos anos iniciou sozinho fabricando réplicas de locomotivas diesel-elétricas , que funcionam com bateria de carro e motores de limpador de para-brisas. A grande diferença dele é que ele utiliza outra bitola, foi mais prático que os outros, mas totalmente fora de padrão. Leo usa a bitola de 10 cm, pelo simples fato de facilitar a escala. As locomotivas que ele reproduz são da bitola de 1 metro, logo, seus trens caem em escala 1:10. Recentemente Leo terminou um de seus mais ambiciosos projetos, a construção de uma locomotiva Texas, que circulou na Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina, em SC. Esta é a maior locomotiva não articulada da bitola estreita a trafegar no país. Leo mantem a unica ferrovia de live steam pública do País, na praça da Paz, em Ribeirão Preto.

Leandro Guidini visita Leonel (à direita, de boné) em sua oficina, posando ao lado de uma de suas G12

Este são os steamers mais conhecidos no País. O Brasil é muito grande, e deve haver outros. Se você pratica esta modalidade, e não conhece este pequeno grupo, contate-nos!

A origem da paixão

O autor do site é um praticante de ferromodelismo desde sua infância. Desde os seus primeiros trenzinhos de brinquedo a pilha, como os nostálgicos ferroramas da Estrela, sentia a necessidade de algo que reproduzisse com mais exatidão aquilo que ele via na ferrovia real nas suas viagens de trem com a família pelo interior paulista. Desta forma, com 6 anos escreve uma “carta ao papai noel” pedindo um trenzinho que ele pudesse ver as portas dos vagões abrindo, e que pudesse colocar pedrinhas nos vagões, com cenários iguais os que via! Prontamente seu “PAI noel” atende ao pedido do filho, e lhe presenteia com seu primeiro trem elétrico em escala. Da marca Frateschi, recebe uma locomotiva G12 na pintura azul da Fepasa, com alguns vagões e um circuíto de trilhos, a diversão era garantida quando montava o trem na mesa da sala, e passava horas brincando. Mas ainda era pouco. Não demora, sua sempre atenta mãe descobre que ha um clube de ferromodelismo no parque do ibirapuera, onde uma gigantesca maquete era utilizada por associados para rodarem seus modelos de trens elétricos. Aquele era um dos passeios mais especiais para o jovem Leandro. Era o primeiro contato dele com a SBF – Sociedade Brasileira de Ferromodelismo, e mesmo sem idade para entrar como sócio efetivo, pelo grande interesse, é autorizado a se associar, juntamente com seu pai. É na SBF que o contato com o Live Steam aconteceu, assistindo um vídeo importado, onde pequenas locomotivas a vapor eram operadas por maquinistas que sentavam diretamente sobre a locomotiva, abastecendo suas caldeiras com carvão em uma mini pá, e transportando muitas pessoas atrás. A paixão surgiu como amor à primeira vista! Também foi na SBF que descobriram a respeito da ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, e seu trem turístico tocado a locomotiva a vapor na cidade de Campinas. Leandro, ja com 9 anos nessa época, se apaixona àquelas belas maquinas a vapor. Se associar à ABPF foi questão de tempo. Muito foi aprendido, e muitos amigos foram feitos, tanto na SBF quanto na ABPF, mas aquele desejo latente de unir as duas maiores paixões não passava. Como construir sua própria locomotiva em escala que realmente funcionasse a vapor?

Os aprendizes Fellipe Bragion e Leandro Guidini visitam a oficina do Mestre Arnaldo Bottan e posam ao lado da mikado

Leandro descobre que ha quem fabrique essas pequenas joias mecânicas, o famoso Arnaldo Bottan, mas como conhece-lo em um mundo antes da internet e das facilidades que a vida digital nos proporciona atualmente? Isto era pelos anos de 1995/96, tínhamos apenas cartas e listas telefônicas, ou a esperança de encontra-lo um dia na maquete da SBF, o que infelizmente nunca aconteceu…

A resposta veio no ano de 2000, em janeiro. Às vésperas de iniciar as aulas no curso técnico de mecânica no Liceu de Artes e Oficios de São Paulo, Leandro consegue com um amigo o telefone de Arnaldo, e liga para ele, em uma longa conversa que termina no convite para que ele e seu pai fossem visita-lo em sua casa, no dia seguinte (era um sábado o dia seguinte). Os dois seguem para a casa de Arnaldo, e ao entrarem na oficina, a primeira locomotiva que Leandro vê sendo construída em cima de um cavalete é uma bitolinha, de projeto do falecido amigo Marcos de Moraes Barros. Começa ali uma longa e grande amizade, e hoje Leandro tem Arnaldo com um Mestre. Em agosto de 2016, aparece mais um steamer para o modesto clube, Fellipe Bragion, um jovem muito competente e dedicado, que esta a cada dia mais demonstrando que veio para ficar e fortalecer a grande amizade que tem entre si!

Em visita a oficina de Mammini, os aprendizes posam ao lado de seus dois grandes Mestres, posando ao lado da “columbia” em construção