O Ramal da Fazenda Santa Teresa

A Fazenda Santa Theresa, de propriedade da senhora Francisca Maria do Val, era uma das maiores propriedades cafeeiras do município de Ribeirão Preto, sendo dona Francisca considerada uma das “Rainhas do café”, perdendo, por pouco, apenas para a senhora Iria Alvez, dona da Fazenda Pau-Alto. A Santa Theresa possuía um total de mil alqueires de terra, com 800.000 pés de café produtivos, que lhe rendiam cerca de cem mil arrobas de produção por safra (algo em torno de um milhão e meio de quilos).

A sede da Fazenda Santa Theresa.
A sede da Fazenda Santa Theresa.

Apesar de ser dona da propriedade, Dona Francisca, viúva, não vivia em sua fazendo, tendo endereço em São Paulo, em um palacete na Alameda dos bambus no bairro do sumaré, confiando a administração de sua fazenda ao Sr. Theotonio Monteiro de Barros. Cento e vinte famílias moravam e trabalhavam na fazenda, espalhadas em dez colônias, sendo a soma de trabalhadores da fazenda algo em torno de 1500 pessoas. Era provida de um terreiro de secagem de café de 46.000 m², todo ladrilhado e servido por uma linha Decauville. Sua tulha possuía maquinas de beneficiamento movidas a luz elétrica.

Linha decauville nos terreiros da fazenda.
Linha decauville nos terreiros da fazenda.

Para seu escoamento, o café era carregado em carroças puxadas por animais até a estação homônima à propriedade, na linha tronco da Cia Mogiana, em uma viagem que durava meia hora, feita três vezes ao dia.

A tulha da fazenda.
A tulha da fazenda.

Com a construção do ramal de Jatahy e Piraju pela Cia Mogiana, parte da via teria que passar pelas terras da fazenda, gerando uma desapropriação de terras. Em contrapartida a isso, foi solicitado por dona Francisca auxilio na construção de um ramal agrícola, em bitola de 60 cm, que ligasse sua tulha até a estação de Santa Theresa da CM. “Por escriptura publica, relativa a passagem do ramal de Jatahy e Piraju, em terras da fazenda da Exma. Sra. D. Francisca Silveira do Val, lavrada em 12 de Outubro de 1910, foi estabelecido que a Companhia auxiliaria com trilhos, um pontilhão e respectiva superestructura metallica de seis metros de vão e outros serviços, a construção de um ramal ferreo que a mesma senhora construisse partindo da estação de Santa Thereza e indo até a porta da machina de beneficiar café da fazenda, com desenvolvimento de 3.487 metros.” (relatório Cia Mogiana, número 59 de 1911, páginas 234 e 235). O pontilhão citado era sobre o próprio ribeirão preto, a ferrovia seguia o leito da CM por alguns metros, virava a direita sobre o ribeirão e seguia pela encosta de um de seus afluentes até a fazenda.

Mapa do ramal Santa Theresa.
Mapa do ramal Santa Theresa.

A obra de construção ficou a cargo do empreiteiro Affonso Giongo, estando todo ele pronto em 1º de agosto de 1911, quando foi entregue à circulação, a um custo, para a CM de 10:156$367. Na estação da CM, havia um desvio terminal de 76 metros de extensão. A pequena ferrovia possuía uma locomotiva e alguns vagões para o transporte do café. O possível motivo da construção deste ramal era a praticidade e redução de tempo nas viagens entre a fazenda e a estação. O que era feito em meia hora de viagens em carro de boi, passou a ser percorrido em aproximadamente 10 minutos de viagem, com maior lotação, melhorando o escoamento, sendo possível uma maior produtividade. Não foi possível mapear o fechamento do ramal, porém, é plausível acreditar que fora feito entre os anos 1940 e 1950, sendo a estação de Santa Thereza fechada em 01/05/1964.  (Leandro Guidini, – março de 2014).

Estação de Santa Theresa da Cia Mogiana, de onde partia o ramal.
Estação de Santa Theresa da Cia Mogiana, de onde partia o ramal.

Leandro Guidini é um jovem apaixonado pelas ferrovias do Estado de São Paulo. Desenhista industrial por formação, atua na área da Arqueologia Industrial, pesquisando temas vinculados à ferrovia e fazendas de café, importante binômio do desenvolvimento paulista, sendo autor de livros e artigos. Em suas horas vagas, conduz algumas das velhas Maria-fumaças preservadas na cidade de São Paulo e pratica ferreomodelismo.

2 comments
  1. Maravilha de informações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *