O ramal da Fazenda Santa Úrsula

Contaremos a seguir a história deste pequeno ramal ferroviário, um “tramway” (ou “caminho de bonde”, em tradução livre) localizado em uma das propriedades do importante Barão de Ataliba Nogueira.

Trilhos do pequeno ramal em frente a sede
Trilhos do pequeno ramal em frente a sede

A fazenda localizava-se no distrito de Jaguarí, pertencente a Mogi-Mirim, hoje no município de Jaguariúna. João de Ataliba Nogueira, o Barão, casou-se com a neta de dona Úrsula Xavier de Andrade, Viúva de Antônio Correa Barbosa, condômino da sesmaria de seu irmão, Alexandre Barbosa de Andrade. Antônio funda a Fazenda Jaguarí, ainda produtora de açúcar em meados da década de 1830. Com sua morte em 1839 e o falecimento de seu irmão, que não deixou descendentes, sua viúva divide as terras por conta do café, que vinha povoando e modificando o cenário do oeste paulista. Úrsula acaba criando sua neta, Luísa. Nesta época, 1847, constrói o grande sobrado sede da Fazenda Jaguarí, legando a Luísa esta fazenda.

Com a morte de sua avó, Luísa e o Barão assumem a posse da fazenda Jaguarí. Em fins do século XIX, a Santa Úrsula (até então, Fazenda Jaguarí) possuía 120 mil pés de café e capacidade para a produção de 6 mil arrobas de café.

Barão de Ataliba Nogueira e sua esposa, Luisa
Barão de Ataliba Nogueira e sua esposa, Luisa

A fazenda localizava-se próxima a estação homônima da Cia Mogiana (CM), Jaguary, por onde era escoada sua produção. Devemos lembrar, neste momento, que o Barão de Ataliba Nogueira foi, por 18 anos, presidente da CM e, morando em Campinas, sempre em viagem para sua propriedade, manda construir uma linha de bondes puxados a burros para sua locomoção (e de sua família) da linha da CM até a sede da fazenda. Não havia nenhum tipo de concessão para a construção de tal ferrovia, visto que andava toda ela em terras particulares.

Estação de Jaguary da Cia Mogiana
Estação de Jaguary da Cia Mogiana
Tulhas e terreiro da fazenda
Tulhas e terreiro da fazenda

Geraldo Sesso Jr. nos dá um panorama interessante em uma pequena biografia que faz do Barão para a revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo: “O curioso e verdadeiramente singular era a existência de longa linha de bondes da sede da fazenda à estação da Mogiana. Na província, depois Estado de São Paulo, não se conhecia outro gênero de transporte tão original, dentro e fora da propriedade agrícola. Havia um desvio da tulha e terrenos de café para o transporte das sacas do fruto já beneficiado, levado dali para a via férrea com destino a Santos. Assim, não existiam para isto troles e carroças que amiúde atolavam na estrada, mas apenas a linha de bondes. Era até pitoresca a condução sobre os trilhos em bitola de sessenta centímetros, quer no bonde de passageiros, quer no bonde de carga.” (Revista do IHGSP, volume 74, pg 86, São Paulo, 1978).

O bonde da fazenda
O bonde da fazenda
Modelo de bonde a burro parecido com o utilizado na fazenda
Modelo de bonde a burro parecido com o utilizado na fazenda

O ramal não era grande, e possuía aproximadamente 1 km de extensão, e muitas são as lacunas sobre seus dados. A versão mais plausível é de que o ramal partia da frente da sede da fazenda, tomando sua direita e passando ao seu lado, indo de encontro com o leito da CM (pelo mesmo caminho onde hoje é a estrada de acesso a fazenda), que passava atrás da sede, parando pouco antes de atingir a primeira ponte sobre o rio jaguary em uma pequena parada particular. Caso algum familiar ou amigo, ou mesmo o próprio fossem desembarcar e tomar o bonde até a fazenda, telegrafava-se para a sede pedindo para que o cocheiro estivesse aguardando na hora que o trem chegasse, então este fazia uma breve parada para desembarque. Possivelmente, o ramal operou entre meados da década de 1890 até aproximadamente os anos de 1920. A partir de 1929 a CM retifica parte do seu trecho entre anhumas e Jaguariúna e, em 1945, desativa definitivamente a estação de jaguary. Como citado por Cesso, haveria um bonde de cargas também, porém, nada a respeito fora encontrado.

mapa

Existe outra hipótese de que o pequeno tramway atravessasse a ponte e chegasse até a estação de jaguary, no entanto, para que isso ocorresse, haveria de ser feito um contrato com a CM, sem levarmos em consideração que a linha do tramway deveria cruzar com a linha da CM antes do aportar à estação, logo, este autor acha o caso mais improvável tendo em vista que em nenhum documento pesquisado pertinente à CM nada fora encontrado.

A chegada dos automóveis, caminhões e tratores foi tornando estes curtos ramais de bondes particulares cada vez mais obsoletos. Muitas fazendas possuíam similares e, da mesma forma, foram sendo erradicados sem grande alarde e quase nenhuma documentação.

Leandro Guidini é um jovem apaixonado pelas ferrovias do Estado de São Paulo. Desenhista industrial por formação, atua na área da Arqueologia Industrial, pesquisando temas vinculados à ferrovia e fazendas de café, importante binômio do desenvolvimento paulista, sendo autor de livros e artigos. Em suas horas vagas, conduz algumas das velhas Maria-fumaças preservadas na cidade de São Paulo e pratica ferreomodelismo.

1 comment
  1. Parabéns pelo trabalho realizado! sempre passo por aqui.

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