A primeira locomotiva 100% nacional

Acredito que muitos ficam pensando a respeito da capacidade tecnológica deste país, e muitas vezes os pensamentos são levados por lendas de que em um período mais distante, onde não havia tecnologia para nada, onde tudo era “artesanal”, não podia-se ter vanguarda e autossuficiência, tais pensamentos sempre nos levam a crer que tudo que era importado era melhor, e éramos escravos de uma tecnologia que não estava em nossas mãos. Estão enganados! Pesquisar sobre tecnologia nacional me fascina, e a muito tempo venho juntando muitas informações sobre várias destas joias tecnológicas brasileiras (aqui representadas pelas locomotivas), e neste caminho sempre esbarramos com João Bottene, o “gênio da mecânica”. Contaremos a seguir, enfim, a história da primeira locomotiva construída com 100% de peças nacionais, todas fabricadas em Piracicaba, interior de São Paulo.

A locomotiva 1, em março de 1950, na Usina Monte Alegre
A locomotiva 1, em março de 1950, na Usina Monte Alegre

Foi construída em Janeiro de 1938 sob projeto de João Bottene, em Piracicaba nas dependências da Usina Monte Alegre. Bottene é considerado o gênio da mecânicapor notáveis feitos, como a invenção do ciclo a álcool para motores a combustão, aproveitando assim a enorme demanda desde combustível nas industrias da região. Mereceria uma biografia este ilustre e brilhante paulista. Trabalhava junto de seu pai na oficina da familia, onde prestava serviços até mesmo para a Estrada de Ferro Sorocabana, provendo consertos em algumas de suas locomotivas. A crise do café, o crash da bolsa e a revolução de 32 geram problemas para a oficina dos Bottene, e se veem forçados a vende-la para  um outro importante usineiro de piracicaba, Pedro Morganti. Os Morganti eram donos da Usina Monte Alegre (UMA), no mesmo município, e da Usina Tamoio, próximo a São Carlos, ambas providas de ferrovia particular, a primeira em bitola de 60cm, e a outra em bitola de 1 metro.

Mesmo não sendo mais donos da oficina, continuam trabalhando nela, e muitas modificações e melhorias nas locomotivas e equipamentos das duas usinas. Desta feliz iniciativa, surge o projeto e construção da locomotiva número 1 (rebatizada, pois a 1 original era uma 0-4-2 O&K) da Usina Monte Alegre, totalmente projetada e construída por Bottene, entregue ao serviço em janeiro de 1938.

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A direção e projeto fica a cargo de Bottene, que foi auxiliado por Renato Henrique Benatti e Ambrozio Aronson. A locomotiva é do tipo 2-6-2ST, toda construída com solda elétrica nas emendas das chapas, incluindo sua caldeira, fabricada em chapas de 1/2” de espessura, feito notável em um momento da tecnologia em que os rebites à quente dominavam. Possui um design aerodinâmico, assinatura particular de Bottene para todos os seus projetos de construção e modificação. Suas rodas de 29” de diâmetro, assim como os cilindros de vapor e todas as peças fundidas foram moldadas e fundidas na própria UMA, e carregam em si a marca padrão do símbolo da empresa. Originalmente possuía chaminé reta, que fora trocada por “balão”. Fora batizada com o nome do dono da UMA, “Fulvio Morganti”.

Dentro da cabine, Bottene posa para uma foto histórica
Dentro da cabine, Bottene posa para uma foto histórica
Bottene posa ao lado de sua obra de arte
Bottene posa ao lado de sua obra de arte

A locomotiva 1 da UMA terminou sua vida na Estrada de Ferro Perus Pirapora, sob o número 18 e o nome “maluca” (por causa de seu formato bem diferente), sofrendo apenas uma modificação do encurtamento do seu chassis sob a parte do reservatório de lenha, atrás da cabine, mas curiosamente nunca alteraram seu combustível (a EFPP queimava óleo nas suas fornalhas), mantendo-se a lenha. Passou sua vida em manobras principalmente em Cajamar, juntamente da locomotiva 17. Nos períodos finais do funcionamento comercial da EFPP, chegou, devido a escassez e alto preço do óleo, a tracionar trens de carreira, em tração dupla com a 17, mas foi uma operação que durou muito pouco.

Locomotiva ex UMA, ja sob número 18 na EFPP, nas oficinas de Gato Preto. Foto Nilson Rodrigues
Locomotiva ex UMA, ja sob número 18 na EFPP, nas oficinas de Gato Preto. Foto Nilson Rodrigues
locomotiva 18 em manobras no pátio de Cajamar, ainda nas cores originais da UMA
locomotiva 18 em manobras no pátio de Cajamar, ainda nas cores originais da UMA
Fotografia rara de um momento em que a 18 e a 17 tracionam um trem no britador de Cajamar
Fotografia rara de um momento em que a 18 e a 17 tracionam um trem no britador de Cajamar

Atualmente, esta sobre salvaguardo do IFPPC (Instituto de Ferrovias e Preservação do Patrimônio Cultural), e aguarda restauro no pátio do Km5 (corredor). Podemos sentir um grande alívio desta verdadeira joia ainda existir, próximo a nós.

A locomotiva da UMA, no dia de sua chagada ao pátio do corredor
A locomotiva da UMA, no dia de sua chagada ao pátio do corredor

A história de Bottene é muito curiosa e longa e, como já citado, merece muito estudo e até mesmo uma biografia. Entre tantas outras locomotivas que construiu, podemos conhecer a história da locomotiva movida a álcool, e também visitar outro exemplar, exposto na cidade de Guarulhos na praça IV Centenário.

Fica aqui então, este pequeno histórico desta tão importante locomotiva a vapor, e esta pequena homenagem ao Gênio da Mecânica.

 

Leandro Guidini é um jovem apaixonado pelas ferrovias do Estado de São Paulo. Desenhista industrial por formação, atua na área da Arqueologia Industrial, pesquisando temas vinculados à ferrovia e fazendas de café, importante binômio do desenvolvimento paulista, sendo autor de livros e artigos. Em suas horas vagas, conduz algumas das velhas Maria-fumaças preservadas na cidade de São Paulo e pratica ferreomodelismo.

3 comments
  1. Muito bom, pena que nunca pude ir ver estas locomotivas e o material rodante. KNA

  2. […] anos 40, então, após a entrada em tráfego da locomotiva “Fulvio Morganti”, a vapor e também construída na UMA, começa a construção desta outra joia mecânica […]

  3. […] anos 40, então, após a entrada em tráfego da locomotiva “Fulvio Morganti”, a vapor e também construída na UMA, começa a construção desta outra joia mecânica […]

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