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A locomotiva a Álcool de João Bottene

Desde áureos tempos é preocupante a utilização de combustíveis fósseis, fontes não renováveis e muito poluentes, mas que são de vital importância para que o mundo funcione, seja queimando nos motores de carros, caminhões ou trens, ou mesmo em uso industrial, das mais diversas formas. Neste País, passamos por vários ciclos em que tentou-se implementar um novo combustível, como por exemplo o famoso “pró-álcool” nos anos 70, após a crise do petróleo de 1973. Hoje em dia, por questões, ao meu ver, de puro marketing, alterou-se o nome do combustível para “etanol”, mas que é basicamente a mesma coisa.

"Maria Helena", a locomotiva movida a álcool construída por Bottene na Usina Monte Alegre, em Piracicaba
“Maria Helena”, a locomotiva movida a álcool construída por Bottene na Usina Monte Alegre, em Piracicaba. Acervo Paulo Moretti

Especialmente no Estado de São Paulo, o álcool é um produto amplamente fabricado, tendo em vista sermos um estado agrícola, que vive seu terceiro ciclo da cana. Basta irmos dar um passeio no interior para observarmos o “mar de cana”, em substituição a um passado no “mar de café”. O que infelizmente muitos de nos não sabemos, por uma triste ignorância que se faz a nossa história, é que esta abundante disponibilidade deste combustível não passou desapercebida no passado e, mais uma vez, a história se cruza com aquele que merece a alcunha de “gênio da mecânica”, João Bottene.

Bottene nesta época trabalhava para os Morganti nas oficinas da Usina Monte Alegre (UMA), em Piracicaba, e a muito já havia convertido alguns motores a combustão interna para a queima do álcool como combustível, em tratores e caminhões, na esperança de utilizar parte da produção da usina, diminuindo o custo com combustíveis comprados fora, como o diesel e a gasolina.

Porque não, então, aproveitar esta feliz experiência para a construção de locomotivas? Muito haveria de ganhar a usina. O custo de manutenção seria menor, não haveriam as famigeradas fagulhas saindo das chaminés das locomotivas em meio ao canavial, o calor na operação seria drasticamente diminuido melhorando a condição para os maquinistas, e o tempo de preparo para as maquinas funcionarem diminuiria muito, ja que era apenas questão de ligar os motores, e sair andando, dispensando as horas de acendimento das caldeiras.

João Bottene, o "gênio da mecânica
João Bottene, o “gênio da mecânica

Nos anos 40, então, após a entrada em tráfego da locomotiva “Fulvio Morganti”, a vapor e também construída na UMA, começa a construção desta outra joia mecânica desenvolvida por Bottene. A locomotiva em questão foi fabricada inteiramente na UMA em bitola de 60 cm, possuía 3 eixos ligados entre si por bielas, e movida com dois motores de caminhão adaptados para a queima do álcool. A cabine ficava centralizada no corpo da maquina, que tinha capacidade de tracionar até 15 vagões carregados de cana. Recebeu o nome da esposa do dono, “Maria Helena”, e teve o número 9 na UMA. Infelizmente, não se sabe o destino que esta verdadeira joia teve, ou mesmo quando paro de funcionar.

Rara fotografia da locomotiva em serviço. Bottene aparece de pé em cima dela. Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba
Rara fotografia da locomotiva em serviço. Bottene aparece de pé em cima dela. Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba

 

Particularmente, eu o coloco como o inventor do ciclo a álcool nos motores a combustão interna, e mais uma vez nossa ignorância com a história retiram da mão da população esta informação preciosíssima. Infelizmente, seus dados são poucos, e não sabemos o paradeiro desta outra maravilha construída por Bottene, uma das tantas jóias que este ilustre paulista nos presenteou em sua brilhante trajetória! (Leandro Guidini escreveu em 11/2016)