The São Paulo Coffee Estates Company

Corria o ano de 1893, quando em 5 de dezembro, Antônio Clemente Pinto Filho, o Conde de São Clemente, residente no Rio de Janeiro, compra uma porção de terras em solo paulista, compreendendo algumas fazendas cafeeiras, sendo as fazendas: Chanaan, Santa Olympia, Posses e São Joaquim.

são paulo coffee estates

Todas estas fazendas localizavam-se, naquela época, no município de São Simão, em zona mogiana, possuindo uma enorme produção de café. A grande demanda na produção leva ao fazendeiro a criação de uma ferrovia agrícola, ligando parte de suas fazendas aos trilhos da Cia Mogiana de Estradas de Ferro (CM), em sua estação mais próxima, de “Serra Azul”, que em 1898 altera seu nome para “Canaã”, de modo que não houvesse confusão com a nova estação da Estrada de Ferro São Paulo Minas, mais próxima à cidade de Serra Azul.

Panorâmica da fazenda Canaã, com destaque ao trem no centro da foto.
Panorâmica da fazenda Canaã, com destaque ao trem no centro da foto.

A ferrovia correria toda dentro da zona de privilégio da CM, desta forma, em 19 de novembro de 1895 fora lavrada uma escritura no segundo Tabelião do publico judicial de notas da cidade de Campinas entre o presidente da CM, Barão de Ataliba Nogueira, e o procurador do Conde de São Clemente, Conselheiro Rodolpho Epiphanio de Sousa Dantas.

As clausulas desta escritura levavam em conta o seguinte: Que ficava autorizado o Conde a construção de um tramway agrícola em bitola de sessenta centímetros, com tração a vapor, denominada “Estrada de Ferro São Clemente” (EFSC), partindo da estação de Serra Azul passando pelas propriedades “Santa Olympia”, “São Joaquim“ e “Chanaan”; Ficaria a CM incumbida de conceder frete de transporte do material da ferrovia entre Campinas e Serra Azul com 50% de abatimento, além de 20% estipulado para material fixo e rodante, pelo mesmo percurso; A CM pagaria subsídio de 8 mil reis por tonelada despachada pela EFSC; Construiria, a CM, em sua estação, os desvios e dependências necessárias para a EFSC, sendo que, dentro deste espaço, estariam todos os funcionários do ramal sujeitos às normas e leis vigentes da CM; Ficaria a CM concedente do uso da água para abastecimento das locomotivas, tomadas de sua estação, com um encanamento de 1 polegada de diâmetro, com instalação por conta da EFSC; Ficaria a EFSC proibida de transportar mercadorias ou despachos em qualquer sentido, de concorrentes da CM, com multa imediata de um frete entre Campinas e Serra Azul; Ficaria a CM privilegiada no caso de venda do ramal, somente sendo possível a venda para terceiros caso a CM desistisse da compra, sendo os futuros donos incumbidos de cumprir a todas as clausulas vigentes da escritura; Deveria o ramal ser construído em um ano, a contar da assinatura da escritura, caso contrário a mesma perderia validade; Não poderia a EFSC se prolongar ou construir ramais sem a devida autorização e consentimento da CM; Todo o despacho executado pela EFSC deveria ser feito exclusivamente pela linha da CM, entre Campinas e Ribeirão Preto, com efeito de, caso houvesse descumprimento, imediatamente seria a CM dona do ramal, pelo valor de base da renda dos últimos três anos anteriores, com juros de 7%.

Fragmento de mapa mostrando parte da ferrovia da Coffee Estates.
Fragmento de mapa mostrando parte da ferrovia da Coffee Estates.

A ferrovia possuía 23 quilômetros de extensão, 3 locomotivas, 12 vagões de carga e 4 carros de passageiros e um pequeno ramal para extração de lenha, que cruzava por baixo do ramal de Jataí, da CM (clique aqui para conhecer a história do Ramal de Jataí). Partia da estação de Canaã no sentido sul, serpenteando as colinas para atingir as fazendas. Operou como EFSC de 1895 à 1897, quando é vendida juntamente das fazendas que atendia para uma nova empresa.

Estação de "Chanaan" (Canaã) da Cia Mogiana, local de onde partia o ramal.
Estação de “Chanaan” (Canaã) da Cia Mogiana, local de onde partia o ramal.

Em 21 de abril de 1897, é formada em Londres uma empresa denominada “The San Paulo Coffee Estates Company Limited” (SPCE), com capital de 270 mil Libras Esterlinas, servindo para que os Srs Schröder Gebrüder & Company comprassem as propriedades Santa Olympia, São Joaquim e Chanaan, possibilitando também arrendamentos de armazéns, plantações, maquinas, ferramentas, acessórios e terrenos no Brasil, para diversos outros serviços. A empresa teve escritura lavrada em Londres em 27 de abril de 1897, assinada pelo Tabelião Jonh Venn, e assinatura reconhecida pelo vice-cônsul Luiz Augusto da Costa em 5 de maio de 1897 no consulado da Republica dos Estados Unidos do Brasil em Londres e, finalmente, reconhecida no Brasil em 14 de junho de 1897 pelo diretor geral L. P. da Silva Rosa, no Estado do Rio de Janeiro. Pela letra “f” da terceira clausula da escritura da SPCE, ela poderia manter e explorar qualquer caminho ou estrada, entrando, desta forma, a antiga EFSC na negociação.

Pelo decreto número 2535 de 28 de junho de 1897, o poder Judiciário do Governo Brasileiro concede a SPCE autorização para funcionamento na República, com artigo único: “É concedida autorização à The S. Paulo Coffee Estates Company Limited” para funcionar na Republica, limitando-se, porém, à exploração de fazendas de café que adquirir no Estado de S. Paulo, sob as cláusulas que com este baixam, assignadas pelo Ministro do Estado da Indústria, Viação e Obras Publicas, e ficando os outros serviços mencionados nos respectivos estatutos dependentes de nova autorização do Governo Federal. Capital Federal, 28 de julho de 1897. 9º da Republica. Prudente J. de Morais Barros”  (DOU, número 190, 16/07/1897 – página 1).

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A ferrovia operou comercialmente como SPCE desde 1897 até 1939, chegando a se destacar como a 4ª maior produtora de café do Estado, com produção de 300 mil arrobas de café por safra. Em 1939, a empresa foi vendida a um grupo nacional denominado “Cia Brasil Rural S/A”, que desativou a ferrovia, sucateando todo seu material. Sobre as fazendas neste período após 1939, nada foi encontrado. (Leandro Guidini escreveu em abril de 2014)

10 comments

  1. Leila Vilela Alegrio

    Caro Sr. Leandro Guidini
    Tive imenso prazer em ler o seu artigo, e fiquei bastante curiosa para ter outras informações sobre a fazenda acima citada, pois tenho a escritura de compra de algumas fazendas feitas pelo então conde de S. Clemente e não me constava esta propriedade. Portanto, se for possível gostaria de saber onde se encontra a escritura de compra desta fazenda e também ter informações que fim teve estas fazendas, pois o conde de S. Clemente faleceu pouco tempo depois de adquirir estas fazendas.
    Agradeço antecipadamente sua atenção, e parabéns por me permitir ter mais esta informação dos Nova Friburgos.
    Leila

    • Vitorio Daniel Bidoia

      Muito interessante as informações repassadas neste material. Venho acompanhando com muita curiosidade os rastros de meus ancestrais. Francesco Toschi com registro nº 16860 da matricula do Museu da Imigração-SP., desembarcou na Estação Chanaan, nos idos de 1906 e foi um dos moradores da S P Coffe States. Estivemos visitando S Simão e quase que visitamos uma Estação abandonada. Fomos frustrados na visita por litigio entra os donos das terras e um assentamento dentro do local. Muito grato por proporcional esta riqueza de informações…

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  3. Celso Jaloto

    Prezado Leandro.
    Busco por informações sobre a Fazenda Santa Olympia, no período de 1910 a 1915. Você sabe onde posso conseguir estas informações? Muito obrigado e parabéns pela pesquisa feita sobre a SPCE.

    • Leandro Guidini

      Celso, boa tarde.
      Desculpe pela demora. Infelizmente este tipo de informação é muito difícil de se conseguir. Sugiro procurar com os antigos proprietários (familiares) ou os novos proprietários, caso a fazenda ainda exista, ou para quem foi vendida.
      Realmente é uma busca complicada. Porém, tente procurar nos cartórios das cidades próximas (cravinhos, são simão, ribeirão preto), procurar no arquivo do estado, diários oficiais. Este é o caminho que eu faria.

      • Octavio Verri Filho

        Sim, existe a fazenda Santa Olympia, em Guatapará, mas aquela abordada na postagem está situada no município de São Simão e pertence a Luiz Augusto Mei de Oliveira.

  4. Octavio Verri Filho

    Prezado Guidini: Obrigado por nos brindar, frequentemente, com informações históricas tão importantes. A propósito dessa postagem sobre a San Paulo Coffee Estates Company Ltd. , nosso grupo de caminhantes esteve , de passagem, na Fazenda Santa Olympia, onde pudemos constatar a grandiosidade da máquina de café, a indicar o que foi a magnitude do empreendimento. Nos links o relatório e a galeria de fotos:https://peregrinosrp.wordpress.com/2011/07/06/caminhada-nos-municipios-de-cravinhos-e-sao-simao-saindo-do-posto-frango-assado-passando-pela-fazenda-santa-olimpia-e-chegando-a-fazenda-estrela-d%C2%B4oeste/
    https://peregrinosrp.wordpress.com/2011/07/06/galeria-de-fotos-caminhada-cravinhossao-simao-do-posto-frango-assado-passando-pela-fazenda-santa-olimpia-ate-fazenda-estrela-d%C2%B4oeste/

  5. Julieta Teresa de Melo Gomes

    Prezado Guidini gostei muito do seu artigo. Venho há algum tempo pesquisando sobre uma fazenda que existe ou existiu perto de S.PAULO que pertenceu ao meu avô João Rodrigues de Melo e ao seu irmão naturais do Minho – norte de Portugal. O nome da fazenda terá sido ” Álvora ” ou ” Choças “. O meu avô faleceu ainda eu não era nascida por isso pouca informação tenho. Apenas gostaria de saber se tenho alguma ainda familia por esses lados. Na sua pesquisa terá lido algo sobre essa fazenda, pois apenas sei que tinha estação de caminho de ferro!?Em portugal dizemos ” não custa nada perguntar” e é o que estou fazendo. Desde já muito obrigada. Os meus cumprimentos.
    Julieta Melo
    Viseu- Portugal

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