Truques de carros de passageiros.

Aproveitando a insônia do momento, e um brain-storm que me domina, vamos falar um pouco sobre os truques de carros de passageiros. Sejam eles de bitolinha ou não, a verdade é que para passageiros, a história é outra, pois no transporte de um tipo de carga que pode reclamar, o conforto deve ser levado em consideração.
Vagões de carga tem um tipo de truque que eu particularmente defino como “secos”, pois o sistema de molas não é equalizado e, apesar de suportar parte dos impactos, ainda assim transfere para o corpo do vagão a vibração. Os eixos neste caso sempre são fixos à armação do truque, e as molas – na maior parte dos casos helicoidais -, fixas aos berços. Simples e eficiente para cargas.
Os truques de passageiros tem uma diferença enorme, e são projetados para melhor estabilidade, menos balanços e melhor inscrição em curvas. Podemos ver na foto inicial que ilustra o artigo um truque marca “Harlan & Hollingsworth Company”, firma norte-americana do estado de Delaware, que esta sob o chassis do carro de madeira ex Ramal Dumont, provavelmente construído pela mesma empresa aproximadamente nos anos 90 do século XIX. Este carro tem um dos 3 pares de truques de bitolinha 0,60cm que tenho noticia no Brasil. Dois desses pares, idênticos, estão na EFPP, e o outro par, desmembrado, no estado do RJ na fazenda de um particular. Este último é de fabricação “Jackson and Sons”.
O desenho que segue acima foi enviado pelo amigo Thor Winbergs, da Alemanha, e representa um truque de fabricação “Jackson and Sharp”. Notemos que o design é basicamente o mesmo sempre. O sistema de equilíbrio consiste em dois tipos distintos de molas, a helicoidal e o feixe com molas de lamina. Os mancais do eixo, que são do tipo “caixa quente” ficam apoiados sob uma barra-de-carga, que fica apoiada sob duas molas helicoidais, uma de cada lado, esse sistema equalizado absorve os impactos. Por sua vez, as cadeiras onde as caixas quentes trabalham (ou pedestais…) ficam fixas ao chassis do truque. Este é preso ao berço por um inteligente sistema de bielas, quatro são elas, duas de cada lado. Estas bielas são apoiadas na parte de cima do travessão do chassis e na parte de baixo do berço. Esta parte acomoda, no caso das bitolinhas, quatro feixes de mola, dois de cada lado, travados entre si por um eixo em cada uma de suas extremidades, um par de um lado, e outro par de outro. Estes feixes estão sob a parte de cima do berço, onde esta acomodado o prato do pião, que é preso ao estrado do carro.
A função destas bielas é gerar um balanço lateral que, por imposição do raio geométrico formado por elas neste balanço, levantar uma parte do berço, abaixando a outra, fazendo com que o carro de passageiros como um todo não se incline nas curvas (ou incline o minimo possível), resultando em uma melhor inscrição (esse sistema é utilizado em truques-guia de locomotivas a vapor também, pelo mesmo motivo). Os feixes de mola servem para suavizar este balanço e para absorver mais ainda os choques e vibrações passadas ao chassis do truque atravez das molas helicoidais.
Vejam que existe toda uma mecânica e toda uma competência técnica para projetar este conjunto. Eu, particularmente, acho fantástico esse sistema. Tudo isso que eu falei foi largamente utilizado em todas as bitolas, e foi substituído por bolsões de ar comprimido.
Nesta foto acima, apontado pela flexa, vemos a biela citada. Existe essa, uma oposta do mesmo lado, e visão de espelho do outro. Seguram em quatro pontos equidistantes. Notamos também os dois feixos de mola deste lado, e as duas molar helicoidais presas entre a barra de carga e o chassis.
Esta outra foto mostra, pela parte de baixo do carro, os 4 feixes de mola (dois pares) apoiados entre a parte de baixo e a de cima do berço.
Toda esta complexidade e sincronismo mecânicos tornam, pra mim, os truques de carros de passageiros maravilhosos. E ainda por cima nas bitolinhas, onde tudo é menor e funciona tão perfeitamente quanto.

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